Articulação para o Monitoramento dos Direitos Humanos

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Justiça reconhece organizações de direitos humanos como Amicus Curiae em ação sobre as enchentes de 2024 em Porto Alegre

O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul admitiu, em 11 de maio de 2026, quatro organizações da sociedade civil como amicus curiae na Ação Civil Pública (ACP) de indenização de danos morais coletivos e danos materiais e morais individuais homogêneos, movida pelo Ministério Público do RS (MP-RS), contra o Município de Porto Alegre. A decisão, assinada pelo juiz Mauro Evely Vieira de Borba, reconheceu a representatividade e a pertinência temática apresentada pela Acesso -Cidadania e Direitos Humanos,  Centro de Direitos Econômicos e Sociais (CDES), Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico (IBDU) e o Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH) para contribuir com o julgamento da causa. Na ação, de número 5085281-97.2025.8.21.0001, o MP-RS requer a condenação do Município de Porto Alegre a indenizar os danos morais coletivos causados à população de Porto Alegre pela inundação do Lago Guaíba em abril e maio de 2024, no valor de R$ 50 milhões, a serem divididos e aplicados em cinco anos orçamentários consecutivos, a contar do trânsito em julgado da sentença condenatória; e indenizar os danos materiais e morais causados pela inundação aos habitantes e empresários residentes e domiciliados nos bairros situados nas áreas protegidas pelo Sistema de Proteção contra Cheias (SPCC) de Porto Alegre, em valores a serem definidos em execução individual e coletiva. A ação pede, ainda, a ampla divulgação nos meios de comunicação e no site do Tribunal de Justiça do Estado, noticiando o ajuizamento e a tramitação da ACP. O que é o amicus curiae e por que importa O amicus curiae, expressão em latim que significa “amigo da corte”, é um instrumento jurídico previsto no artigo 138 do Código de Processo Civil que permite a entrada de terceiros em processos de grande relevância jurídica, social ou econômica. Não se trata de uma parte do processo, mas de uma voz técnica e qualificada que auxilia o juízo na compreensão da dimensão social e dos impactos coletivos da causa. Na decisão, o juiz reconheceu que a demanda possui “manifesta relevância jurídica, social e econômica, diante da magnitude do evento climático, dos impactos suportados pela população atingida e da repercussão coletiva da controvérsia, envolvendo milhares de pessoas, empresas, serviços públicos e estruturas urbanas da Capital”. A admissão autoriza as entidades a acompanhar o processo e se manifestar nos autos por meio de advogado, quando autorizado pelo juízo. Omissão municipal no centro da disputa A petição apresentada pelas organizações em setembro de 2025 concentra seus argumentos, reforçando a omissão e a má gestão da Prefeitura de Porto Alegre em relação ao Sistema de Proteção contra Cheias (SPCC). O documento aponta que a administração municipal ignorou alertas técnicos que datam de pelo menos 2015. Entre esses alertas estava o Diagnóstico do Plano Municipal de Saneamento Básico, que já indicava que a quase totalidade das estações de bombeamento era hidraulicamente insuficiente e que o estado de conservação das casas de bombas era precário. Um estudo de 2019 intitulado “Convivendo com as inundações” também havia recomendado medidas específicas para os bairros do 4º Distrito e das Ilhas. Tais recomendações foram desconsideradas. A petição aponta ainda a extinção, em 2017, do Departamento de Esgotos Pluviais (DEP) e o sucateamento do órgão sucessor, o Departamento Municipal de Água e Esgoto (DMAE), como parte de um processo deliberado de deterioração estrutural que ampliou os danos da enchente. Impacto desproporcional sobre populações vulneráveis Um dos eixos centrais da contribuição das organizações é o impacto desigual da tragédia. Embora a enchente tenha afetado amplas camadas da população, a petição demonstra que os grupos historicamente vulnerabilizados (populações negras, mulheres, crianças, pessoas com deficiência e trabalhadores informais de comunidades periféricas, especialmente da região do 4º Distrito e do Sarandi) suportaram uma carga injusta e desproporcional de danos e violações de direitos humanos. Esse argumento é subsidiado por dois relatórios produzidos no âmbito do monitoramento coletivo das violações: o “Relatório de Direitos Humanos sobre a tragédia climática de maio de 2024 no estado do Rio Grande do Sul”, coordenado pelo CDES, e o “Violações dos Direitos Humanos no Brasil: relatório de casos com denúncias e recomendações”, publicado em 2025 pela Articulação para o Monitoramento dos Direitos Humanos no Brasil (AMDH). Monitoramento contínuo no território A atuação jurídica se soma a um trabalho de base que vem sendo desenvolvido desde as enchentes por uma rede mais ampla de organizações, entre elas a AMDH, o Fórum Popular do 4D, o Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM-PoA) e a Desabafa, Associação Cultural e Educativa pelo Desenvolvimento do Bairro Farrapos, bem como o CDES e a Acesso DH. Essa rede tem acompanhado de perto a situação das comunidades impactadas, realizando ações de formação, incidência política e construção coletiva de estratégias de denúncia junto aos órgãos públicos. A admissão como amicus curiae representa mais um passo nesse processo: o reconhecimento, pelo Judiciário, de que a presença da sociedade civil organizada é parte legítima e necessária na busca por justiça para as vítimas das enchentes de 2024.

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Representantes de organizações debatem novas estratégias para comunidades atingidas pelas enchentes no 4º Distrito de Porto Alegre

Ontem, sexta-feira (14), representantes de organizações se reuníram no Comitê Popular de Luta do Bairro Farrapos para pensar novas estratégias políticas e de mobilização referente às comunidades pertencentes ao 4º Distrito de Porto Alegre, que foram severamente afetadas pelas recentes enchentes no estado. As violações de direitos humanos nessa região já vêm sendo monitoradas pela Articulação para o Monitoramento dos Direitos Humanos (AMDH) desde o início da pandemia de Covid-19. Estiveram presentes Enéias da Rosa, secretário executivo da AMDH, Paulo Guarnieri, liderança comunitária, Rodrigo Schley, representante da Associação Desabafa, Claudete Simas, advogada e representante da Acesso – Cidadania e Direitos Humanos e Cristiano Muller, advogado e representante do Centro de Direitos Econômicos e Sociais. Durante a agenda, os participantes debateram sobre a realização de encontros regionais para mobilização, a organização de visitas aos territórios afetados, a consulta às comunidades sobre suas principais demandas, a formalização das solicitações da população e a possíveis ações de doações e cadastramento. Tais iniciativas buscam atender as necessidades urgentes, reunir as comunidades para planejamentos de lutas e cobrar a responsabilização e reparação dos danos causados. A reunião foi realizada na sede da Associação Desabafa, o Comitê de Luta Popular do Bairro Farrapos, que foi atingido pela enchente. A água cobriu grande parte da estrutura, ultrapassando o nível das portas. O espaço para organização comunitária, que inclusive já sediou alguns de nossos encontros e reuniões com as comunidades, também funcionava como cozinha solidária. Nas fotos abaixo, é possível ver a situação atual e a comparação do local com nossos registros anteriores da cozinha em funcionamento.

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Organizações enviam informe à ONU denunciando violações de direitos humanos no 4º Distrito de Porto Alegre

Nesta terça-feira, dia 14 de março de 2023, a Articulação para o Monitoramento dos Direitos Humanos no Brasil (AMDH), o Centro de Direitos Econômicos e Sociais (CDES), o Fórum Popular do Quarto Distrito (4D) e outras organizações e movimentos sociais signatários enviaram uma carta ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) e aos Mecanismos de Proteção de Direitos Humanos denunciando a situação de desrespeito aos direitos humanos no 4º Distrito de Porto Alegre, localizada no estado do Rio Grande do Sul. O material foi encaminhado com cópia para o atual prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, para a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão e para a Defensoria Pública do RS. O documento enviado apresenta diversas violações aos direitos humanos das milhares de famílias que ocupam as áreas do 4D, identificadas por diversos nomes, como Casa de Passagem, apelidada de Carandiru, Vilas Tio Zeca, Areia, Voluntários, Cobal, Beco X, Zumbi dos Palmares, Liberdade, Mário Quintana, Beira do Rio, a Ocupação da Frederico Mentz, 330, Vilas Dona Teodora, Santo Antônio, Campos Verdes, Trensurb/Fazendinha e Santo André. Estas regiões são predominantemente compostas por assentamentos/ocupações irregulares em terrenos públicos ou privados, anteriormente não utilizados ou subutilizados, e que há décadas atendem, mesmo que precariamente, a necessidade de moradia de milhares de famílias. A carta destaca que, nos últimos anos, não houve intenção em promover amplamente, de maneira suficiente, políticas públicas de moradia e de interesse social, voltada para essas comunidades mais pobres e ocupações que habitam o 4D. Entre as principais denúncias expostas pelas organizações e movimentos sociais signatários da carta estão a falta de políticas públicas habitacionais para essas comunidades mais pobres e vulneráveis, a precarização intencional do território para fins imobiliários, a flexibilização de regramentos urbanísticos em benefício de empreendimentos privados sem prever contrapartidas sociais e ambientais, e a ameaça de despejo e reassentamento de famílias que sobrevivem de atividades informais no território. Programa +4D de Regeneração Urbana do 4º Distrito de Porto Alegre O encaminhamento do documento marca a semana seguinte ao evento em que foi discutida a revisão do plano diretor da cidade, a Conferência da Revisão do Plano Diretor de Porto Alegre. O evento ocorreu entre os dias 7 e 9 de março e contou com a participação de representantes do poder público e da sociedade civil, entretanto gerou preocupação para as entidades denunciantes em relação à fraca participação das comunidades. Definidos pelo Plano Diretor, o poder público municipal autorizou 53 projetos especiais na capital entre 2010 e 2019. Dentre os projetos, está o Plano +4D, que atinge diretamente os moradores da região. “Os projetos especiais, ferem princípios do planejamento urbano que são garantidos pela Constituição, como a gestão democrática e a justa distribuição dos ônus e benefícios do processo de urbanização. Assim, violam direitos, provém a concentração da renda urbana e agravam as desigualdades sociais”, declara Karla Moroso, arquiteta e diretora executiva do CDES Direitos Humanos. As entidades afirmam que esta região urbana sofreu uma precarização intencional, visando baixar o valor do m², para que o setor imobiliário venha a adquirir, tomando conta do 4D, realizando uma higienização com programas que mobilizem grandes valores. Recentemente, o Executivo Municipal aprovou junto à Câmara de Vereadores o Programa +4D de Regeneração Urbana do 4º Distrito de Porto Alegre (Lei Complementar 960/2022), que prevê a flexibilização de regramentos urbanísticos, incentivos urbanísticos e tributários para empreendimentos, investimentos públicos em obras nas principais avenidas e vias. Essa ação ocorreu sem prever quaisquer contrapartidas que possibilitassem investimentos no interesse social e ambiental (Função Social da Cidade) a favor das famílias que ocupam os assentamentos irregulares do 4D, garantindo a elas alternativas de permanência no território. Nova Ponte do Guaíba Ainda segundo informações da denúncia, desde 2014 iniciou-se a construção da obra chamada “nova Ponte do Guaíba”, de responsabilidade do governo federal, a qual, na parte que ainda resta ser concluída, avançará sobre as casas dos moradores das Vilas Tio Zeca, Areia, Voluntários e Coobal. Até o presente momento, no ano de 2023, centenas de famílias dessas vilas permanecem no território aguardando as soluções que serão oferecidas, de parte do Ministério dos Transportes e do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). O informe enviado à ONU denuncia que a construção da nova Ponte do Guaíba está gerando impactos graves e irreversíveis para a vida dos moradores e moradoras. Além disso, a obra está sendo realizada sem a realização prévia de estudos de impacto ambiental e social adequados, e sem a realização de consulta e participação das comunidades afetadas. Organizações e movimentos sociais responsáveis pela denúncia Outras informações institucionais podem ser encontradas no site da AMDH e do CDES. Essas denúncias alertam para uma situação grave de violação dos direitos humanos dessas comunidades e pedem a intervenção das Nações Unidas para garantir que o Estado brasileiro cumpra com suas obrigações e compromissos internacionais em relação aos direitos humanos, especialmente no que diz respeito ao acesso à moradia digna e ao direito à cidade para todos. As organizações que assinam o documento são: Articulação para o Monitoramento dos Direitos Humanos no Brasil (AMDH); Centro de Direitos Econômicos e Sociais (CDES); Fórum Popular do Quarto Distrito; Acesso: Cidadania e Direitos Humanos; Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH);  Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM); Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST); Movimento de Trabalhadores por Direitos (MTD); Confederação Nacional das Associações de Moradores (CONAM); Conselho Regional pela Moradia Popular (CRMP/RS); Frente Nacional de Luta pela Moradia (FNL); Federação Gaúcha das Associações de Moradores e Entidades Comunitárias (FEGAMEC); Observatório das Metrópoles – Núcleo Porto Alegre; Comitê Popular de Luta do Bairro Farrapos; Rede Emancipa; Rede Jubileu Sul; Campanha Despejo Zero – núcleo Rio Grande do Sul.

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